O atraso útil: como as tendências globais antecipam o próximo ciclo da gestão no Brasil
As grandes consultorias globais já não tratam IA, dados e automação como pauta experimental. O centro da discussão migrou para execução, governança, produtividade e redesign dos modelos operacionais. No Brasil, onde a maturidade digital é desigual por porte e setor, essa defasagem vira um mapa: observar o que está funcionando fora ajuda a prever onde o mercado nacional tende a criar demanda nos próximos anos.
O sinal das consultorias globais: a fase do hype terminou
McKinsey, BCG, Deloitte, Accenture e Gartner convergem em uma leitura: a vantagem competitiva não está mais em “testar IA”, mas em incorporá-la ao modelo operacional. A McKinsey descreve CIOs como arquitetos de estratégia, com empresas líderes usando IA agentiva e monetização de dados para gerar valor mensurável [1]. A BCG projeta que o investimento corporativo em IA deve dobrar em 2026, de aproximadamente 0,8% para 1,7% da receita [2]. Já a Deloitte aponta que o acesso dos trabalhadores à IA cresceu 50% em 2025, mas apenas 34% dos líderes dizem estar realmente reimaginando o negócio [3]. A conclusão é direta: a nova fronteira não é a ferramenta, é a gestão da ferramenta. Accenture reforça que o maior obstáculo para capturar valor de IA deixou de ser a tecnologia e passou a ser o alinhamento humano: treinamento, confiança, clareza de visão e adaptação da força de trabalho [4]. Gartner adiciona uma camada crítica: agentic AI, plataformas de governança, segurança de IA, proveniência digital e cibersegurança preventiva aparecem como temas centrais para 2026 [5].
O Brasil está digitalizado, mas ainda é operacionalmente imaturo
O Brasil não está fora do jogo digital. O problema é outro: existe acesso, mas nem sempre existe maturidade. O ITDBr 2025, da PwC Brasil com a Fundação Dom Cabral, mostra índice médio de transformação digital em 3,6 numa escala de 1 a 6, com leve queda ante 3,7 no ano anterior [6]. O dado mais importante, porém, está nas dimensões: decisões baseadas em dados subiram de 3,5 para 4,1, infraestrutura tecnológica avançou de 3,6 para 4,3, mas clientes digitais, governança digital e fronteira tecnológica recuaram [6]. A leitura é que muitas empresas brasileiras estão melhorando a base — infraestrutura, dados, segurança —, mas ainda têm dificuldade em transformar essa base em diferenciação, relacionamento digital e inovação. Isso confirma a tese da McKinsey Brasil: líderes digitais no país têm desempenho financeiro superior, com crescimento de EBITA até três vezes maior que empresas menos maduras, mas a amostra geral ainda fica distante dos líderes nacionais e globais [7].
Nas PMEs, o próximo salto será gestão antes de IA
O Sebrae mostra que a digitalização dos pequenos negócios atingiu nível histórico: 76% dos empreendedores usam computador, 98% têm acesso à internet e 47% já utilizam aplicativos, softwares ou programas integrativos [8]. Ao mesmo tempo, a pesquisa Sebrae/FGV IBRE indica que o uso de IA nos negócios varia por porte: 63% nas médias e grandes empresas, 46% nas MPEs e 42% nos MEIs [9]. A diferença está no tipo de uso. Médias e grandes empresas usam IA principalmente para análise de dados; pequenos negócios usam mais para marketing, divulgação, comunicação e geração de ideias [9]. Isso sugere que o mercado PME ainda vai precisar de produtos intermediários: planilhas inteligentes, dashboards, rotinas de gestão, modelos de decisão, checklists e automações simples antes de migrar para sistemas complexos.
Conclusão e Oportunidade
O papel da Redscale é o de traduzir o vocabulário das grandes consultorias para a realidade de empresas brasileiras. Enquanto os relatórios globais falam de agentic AI, data monetization, digital provenance e workforce redesign, o mercado nacional precisa de equivalentes acionáveis: controle financeiro, maturidade de gestão, indicadores, cadência de análise, automação possível e tomada de decisão por evidência. O futuro da gestão no Brasil provavelmente não chegará como uma ruptura súbita. Ele virá por camadas: organização, dados, automação, IA e governança. Para parte do mercado, isso já está em curso. Para PMEs e setores mais tradicionais, ainda é uma agenda emergente.